quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Gato Vadio: Os novos xeiques, cardápios e galinhas douradas
Os novos xeiques, cardápios e galinhas douradas
A partir de 2003, feitas as avaliações sobre a quantidade de petróleo a extrair do subsolo marinho, um novo capítulo na economia brasileira começara. Promissor ao extremo, o que antes eram oito suficientes bilhões de barris ocultos sob toneladas de sal jurássico transformou-se em catorze e logo depois trinta e três – e há contagens em três dígitos de tal ordem, capazes de transformar (isso sim) um modesto parlamentar ou executivo num novo xeique ou mesmo califa, se bobear, aiatolá. De tal ordem será o crescimento petrolífero deste lado do equador que pode-se dizer, sem susto, que os novos xeiques falarão português, comerão feijoada e rezarão o seu Alcorão dez vezes ao dia virados para o Maracanã.
Nesta nova geografia do petrodólar, o Brasil emergirá como a sexta maior economia do planeta, atrás apenas dos cinco grandes do Oriente Médio. A romaria ao Planalto já começou, com os principais nababos estaduais querendo um dos incontáveis ovos de ouro da mais cobiçada galinha do momento.
E, se há um momento adequado para ajeitar o galinheiro, é agora.
A despoluição total das baías de Guanabara e Sepetiba, o reequipamento e melhor adestramento de nossas polícias, a melhoria dos hospitais estaduais, apoio ao agricultor – sobretudo no norte do estado – e um ensino de qualidade: meio ambiente, saúde, educação e segurança devem ser, no cardápio dos novos xeiques tupiniquins, os pratos principais e não apenas uma entradinha insossa tal salada cheia de larvas. Pois o óleo que sairá das salgadas profundezas fluminenses deve temperar a mesa de todos os fiéis seguidores da Mesquita do Suado Imposto Contribuinte – e não para criar novos paxás, xeiques e aproveitadores. Da natureza, do cidadão e de sua completa ignorância político-econômica.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Terezinha (Batista) de Jesus, ainda na guerra
Quando veio o primeiro - prometendo mundos e fundos, investindo pesado na estabilidade a prazo fixo, sem riscos no mercado da vida ou debêntures confiáveis na Bolsa de Futuros - Terezinha percebeu que subiria rápido no organograma da paixão; sim, pois mesmo não tendo a certeza se gostava ou não daquele fiador de seu coração, ela acreditava que o tempo ajeitaria as coisas no balancete do amor; despesas com defeitos de fabricação e faniquitos seriam iguais às receitas sexuais e materiais. Não foi assim: o lastro inseguro devera-se à excessiva bagaceira dos happy-hours das sextas que, invariavelmente, acabavam numa segunda de manhã, em bordéis ou delegacias, após brigalhada insana com terceiros por motivos esdrúxulos. Fechou a conta, passou a régua - e, assustada, disse não.
Acudiu-lhe o segundo cavalheiro - chapéu na mão, gestos floreados, sorriso largo e todo envolto em branco, assemelhando-se a um pai-de-santo ou ao Rei das Gafieiras; e pelas noites cariocas flanaram, incólumes e felizes, nos salões do deleite e musicalidade. Desde Moreira da Silva e o samba-de-breque até o Fundo de Quintal e Leci Brandão, passando por Paulinho da Viola e Jorge Aragão: para eles a vida era feita de luzes, confetes e serpentinas, beijo na boca, suor e cerveja. Nada de pias com pratos para lavar, filhos para cuidar e nem mesmo contas e obrigações. Segunda-feira, Porto Seguro; terça e quarta, Lençóis Maranhenses; restante da semana, um pulinho no Caribe com direito a café da manhã em Nassau e o jantar sob os auspícios do Buena Vista Social Clube em Havana, ao som de maracás & marimbas. Até que o príncipe da malandragem revelou seu lado beira-do-mangue em cada tabefe por conta de cada gafe cometida no círculo social ou reclamação de cansaço. Mesmo quando ronronante, implorava por uma saborosa trégua no cantinho daquele aconchegante sofá caseiro, quando finalmente ela o teria - só que, mundano e purpurínico, ele odiava. Terezinha, com isso, desceu do palco; nos bastidores cerrou o pano, encerrando, apavorada, o segundo ato.
Inteiramente desarmada, assustada e fragilizada, Terezinha sequer percebeu a chegada do terceiro; ele nada trouxe e também nada prometeu ou perguntou. Ela não sabia seu nome ou que fazia ou fizera, se tinha filhos (no caso de, seriam legítimos ou bastardos), se ele era empregado ou arrivista, se matara alguém ou morrera para a vida comum dos homens comuns, tamanho era seu mistério. Só sabia de uma coisa: aquilo que seu corpo, alucinadamente submisso, clamava quando estavam juntos. Nada era impossível na busca do prazer total. Chamava-a de fêmea, potranca, puta; revirava-lhe o corpo de todas as maneiras e arrancava loucura e êxtase de onde sequer supunha existir, Michelangelo pincelando diabolicamente a sua capela Sistina com demônios lácteo-flamejantes na cúpula de sua resistência deseperadamente depauperada. Não sentia mais dor ou prazer, era escrava, entregue, jazida sob a mortalha tecida pelo alfaiate da renúncia... mas feliz, como jamais fora em sua vida. Não tinha vontades, tinha fome. E uma voraz insegurança nos seus menores gestos, como ao comprar cigarro no bar da esquina e a angustiante demora. Até que um dia ele foi e não voltou. Feito um círculo na água, ele surgiu em sua vida trazendo magia e satisfação plena e irrestrita, crescendo, crescendo para então, sumir na superfície plácida e serena do negro lago em que se tornou o seu coração... sedento por amor a cada busca infrutífera.
Fim? Sei não...
Neste exato momento em que luto deseperadamente neste teclado ilegível (quase que em braille), Terezinha está em seu quarto de dormir. Cansada, mas ainda operosa na guerra. Fardas, fardões, camisolas e calcinhas, espólios de batalhas contra as inconstâncias e descombinações do destino somados ao melhor de seu arsenal de conquista e sedução, tudo dependurado ou espalhado na cômoda, tal um ofertório bizarro. Sob a cama, bacia quase seca e dezenas de bilhetinhos como prova de tenacidade e beatitude desta autêntica Joana d'Arc na busca incessante pelo coroar de seu amado delfim, seja ele quem for e onde quer que apareça. De quebra, outra reprimenda em Toninho, mais áspera, já íntima daquele metro e quinze de gesso pintado, ponta-cabeça no canto do espartano vestíbulo:
- Não adianta! Enquanto não for do meu jeito e como eu quero, você fica por aí, plantando bananeira até o quinto dos infernos esfriar!...
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Vivo, logo deduzo

Ax² + Bx + C= 0 ; + ou - a raiz quadrada de delta sobre 2a ; a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa... Para David (e todos aqueles apaixonados por números), a matemática é a síntese derradeira do velhíssimo conceito de um universo perfeito: regras claras, verdades absolutas, "pense num número - divida por dois - tira dois - deu três? - Como sei? - ahn..."; mas, calma lá!, ele não é nenhum neurastênico do ITA ou IME, ou físico especializado em propulsão de jatos em Alcântara; embora o seu sonho maior fosse o de dividir a mesma cápsula orbital na estação espacial com o Cel. Marcos Pontes, David se contenta com René: bom cartesiano, não admite que certas regras do cotidiano sejam feridas por cutiladas profundas de excentricidade. "Penso - logo, existo!": tudo se resume a isso, na ótica prática e concisa do técnico em eletrônica de 45 anos e concludente do superior pitagórico na federal de maior prestígio nos almanaques e guias letivos, sorriso expressivo e face prematuramente sulcada por senectude hereditária: Vivo, logo deduzo - eis aí uma adaptação de Descartes que ele sempre aplicava em seus pequeninos dramas diários. Pensar e existir? Isso é igual à soma dos catetos...
Para todos aqueles que fazem da precisão o seu ofício, há encaixe para tudo: um admirável mundo-não-tão-novo, porém conciso, espartanamente simétrico, de formas a trucidar de inveja Sherlock Holmes ou Hercule Poirot: "elementar, mon chèr Hastings!", saiba sempre (por onde quer que vás) que dois é o único número primo par, qualquer número elevado à zero é igual a um, etc... Pelo tanto de atenção dedicada desde a mais tenra idade, David sabia que o coração de Larissa já tinha dono: inteligente, jamais fizera o gênero 'nerd' de Rick Morannis ("Querida, encolhi o bilau, ops!, o bebê!") ; ao contrário, sempre alerta e obediente, o escoteiro sempre soube como esfregar o graveto de formas a incendiar o coração e tudo o mais da bandeirante nove anos mais nova que ele; atencioso, prestava-se a explicar complicadas fórmulas do modo mais fácil possível à lourinha de incipiente carnadura renascentista, Eros em luzidos cachos e trapos reduzidos a inspirar muito mais que raízes cúbicas em decúbitos dorsais após a saída dos adultos para seus lazeres; uma Lua-de-Papel, onde Tatum O'Neal fôra substituída com louvor por Julliette Lewis, atraída pelo sadosedutor Robert De Niro, prontinha em falsos pudores para se afogar num Cabo do Medo...
Batalhou a estabilidade no serviço público e fôra galgando seu espaço lá dentro graças a um intrincado teorema nada pitagórico: após um tórrido caso com a sobrinha festeira do seu chefe de setor. Cedo, percebera que não teria paz de espírito por conta do temperamento folclórico por demais da mulatinha enviesada das bolas; mas também desde cedo adotara o padrão quase comum a sólidos casamentos, a fim de que não enlouquecesse (e perdesse o ganha-pão): adultérios esporádicos. Um expediente capricornianamente eficiente embora com ressalvas perigosas - passara a desenvolver uma espécie de resistência a demonstrações de afeto, sinceras ou não. E, embora sustentasse tal política de vida a fim de não perder o cornucópico alicerce de seu direito adquirido, entre uma e outra equação irracional, a correspondência biunívoca a perturbar-lhe o autocontrole era sempre a lembrança da menina foguenta a sorrir em explicações sobre fórmulas e contas, esfregos e amassos, maciez da pele e o cheiro de sedução púbere e inexplicável sob os auspícios de Thales de Mileto e Arquimedes.
Eis que, um dia, num posto de gasolina na Abolição, a frentista de formas apertadamente sedutoras revelara-se, em toda a sua maravilhosa e ingênua imagem: Larissa pareceu-lhe mais formosa que nunca, agora numa franjinha bem sacana sobre os olhos ainda sapecas e desejosos por explicações mais intrincadas: por quê sumira, por onde andara, a saudade dos tempos de dúvida, etc...pois bem: visto que as lembranças de tempos imorredouros ainda animavam ambos os íntimos, a conversação fôra breve: duas cervejas e muitas risadas depois, David tirou, por três deliciosas horas, sob espelhos e espumas, sobre cama aconchegante, a prova dos nove mais saborosa de toda a sua vida: de fato, a menina tornara-se a mais deliciosa das mulheres - ainda sapeca e saliente, mas com aquele traquejo fantástico de toda experiência adquirida, mais do que qualquer dos direitos que David pudesse tomar ciência exata.
Cinco meses. Cinco fantásticos meses com a mulher com quem sempre sonhara, apesar de seu estado civil um tanto quanto incômodo. Tempo necessário para que David cometesse, pela primeira vez na vida um deslize: abandonou o cartesianismo. Preparava a estratégia de libertação com esmêro já habitual; tinha o suficiente para iniciar a carreira-solo com um mínimo de conforto e segurança. Sendo Larissa uma pessoa simples, não se incomodava com seu status-quo - isso facilitava as coisas. Conheceria a felicidade, longe das reservas e das grades segregadoras. Ela seria, de novo, sua aluninha aplicada.
Aluna?!
O susto veio quase às portas do anúncio da sua separação com a sobrinha do seu chefe: enfurecida por perder o seu bibelozinho anelado, a mulatinha-das-ventas soltou, colérica, a revelação de não só um, mas dois amores secretos em sua vida agitada de perua-classe-média; um, o próprio David conhecia - tanto que nem se incomodava tanto, pois o cara era chefe do seu chefe, ali não havia como bancar briga ou chilique. Prático como era, não poria seus cálculos bem arranjados a perder só porque ali a conta não fechava exata. Sairia na urina e pronto.
Às vésperas do ensaio da fuga, o choque.
Quase uma da manhã, entrou no quarto e deparou-se com a cena: esposa e aluna-amante no maior love story que sua limitada cabecinha de matemático jamais concebera; a soberba com seus conceitos tão arraigados não lhe permitira perceber que a mulata também freqüentava o mesmo posto e tinha íntima amizade com a lourinha que sempre fôra da lira - mas ele, no alto das tamancas da suficiência, não notara, por conta de tantas promessas, beijos, penetrações e gozos espetacularmente obtidos após tanto tempo de sumiço. Sublimou-se, o mestre, à maior desenvoltura da discípula - sem precisar, sequer, de fórmulas complicadas para se satisfazer nesse mundo de pessoas inteligentes e hipócritas.
David?
A última notícia que se teve do brilhante matemático é que pedira (e obtivera) transferência para Mato Grosso, num posto avançado da FUNAI, onde os Urueu-wawau, além de carentes de álgebras e trigonométricas fórmulas, queriam mais informações sobre as luas de Marte...
Larissa?
Agora é secretária do novo matemático da seção do tio de seu novo e diferenciado cacho romântico. Sem precisar de nenhuma explicação sobre equações ou raízes cúbicas - mas sempre em decúbitos dorsais...
terça-feira, 14 de julho de 2009
M U L H E R - G A T O

Látex e língüa,
um banho saboroso
de norte a sul do meu corpo;
escala-me, serelepe,
nas patas de uma paixão animalesca,
revelada por olhar azul-puberdade,
de intensa beleza e molecagem;
sorriso gostoso de felina fogosa,
loura e sacana, prende-me na cama
com chave de coxa e chicote de couro:
a hora da fera...
...dentes removem último empecilho
entre a brasa faiscante e a pele sedosa
da gata ronronante
que vê, no refém-amante, na arma em riste,
um pires de leite.
F O M E

Havia algo mais no ar, do que, tão somente, os aviões de carreira.
Havia uma dupla angústia.
Corações blindados contra uma série interminável de infortúnios e decisões duras - certas, porém duras.
Havia a esperança de um eflúvio momentâneo de ternura naquelas palavras que surgiam, rápidas e alvissareiras, no site de mensagens. Havia a esperança. Uma dupla esperança.
Mas... havia algo mais no ar...
Algo pendente. Que precisava ser feito. Antes que a vida escoasse, ralo abaixo, de vez. Antes que a velhice dominasse o cérebro - pois o corpo já sucumbira à necrose do tempo - algo além da angústia, das blindagens, infortúnios e decisões.
Havia a fome da alma.
HYERONIMUS, diz: "Acho que chegou a hora de nos despedirmos."
DESDÊMONA, diz: "Porrrr quê?"
HYERONIMUS, diz: "Não temos mais o que dizer um ao outro... não percebe? Esgotamo-nos mutuamente; sugamos tudo que podíamos sugar um ao outro, não temos mais segredos. A magia some quando os segredos somem. Não é assim com os mágicos cujos segredos são-lhes desvendados?"
DESDÊMONA, diz: " Seja, então, o meu 'Mister M', vire-me pelo avesso, não ligo, mas...porrr quê? Logo agora, que o principal se faz necessário?"
HYERONIMUS, diz: "...não posso."
DESDÊMONA,diz: "Então, sua magia é truque, sua Fé é vã, seu amor é brisa..."
HYERONIMUS,diz: "Mulher, não cite as Escrituras, deixe Deus fora disso, meu amor é fogo que consome corpo e alma..."
DESDÊMONA, diz: "Um ano! Um ano de enigmas, de volteios, falácias e luzes em túneis sem fim: um ano que vc vai jogar na sarjeta mais abjeta se, assim, me escapares..."
HYERONIMUS,DIZ: "Ei-lo - e é aqui, o porquê da questão - ei-lo!"
DESDÊMONA, diz: "Eis, o quê?"
HYERONIMUS, diz: "Por quê ESCAPAR?"
DESDÊMONA, diz: "Ora...é só jeito de falar, quê!"
HYERONIMUS, diz: "O que fizestes com o pobre rapaz... acha certo?"
DESDÊMONA, diz: "Cássio? Ah! Ele é jovem, não haveria, desde o início, como ficarmos...ele sabia! Além do quê já tenho problemas com Otávio, aquele ciumento, doente; outro dia, recitei Bilac, só para aturdi-lo... Estou cercada de gente chiclete, uns no interesse, outros na carência, todos me apoquentando. E só tu, que perscruta a minha alma, me é fugidio. E agora, sei vai assim, ao léu, pôxa!"
HYERONIMUS, diz: " Eu tenho fome de vc. Da tua alma."
DESDÊMONA, diz: "Então?!"
HYERONIMUS, diz: " '...somos iguais em desgraça'..."
DESDÊMONA, diz: " 'Blues da Piedade', Cazuza; conheço a música, não me enrola. Eu quero..."
HYERONIMUS, diz: "Abrir a caixa de Pandora?"
DESDÊMONA, diz: " Não me pega mais, 'M': o ultimato é meu. Quando? A fome não espera. Nem a vida..."
HYERONIMUS, diz: ".............."
( DESDÊMONA acabou de pedir a sua atenção!)
(DESDÊMONA convidou vc para uma conversa em vídeo)
(HYERONIMUS recusou o convite para uma conversa em vídeo)
DESDÊMONA, diz: " ?Que pasa, cabrón?"
HYERONIMUS, diz: "Aguardo..."
DESDÊMONA, DIZ: "????????"
HYERONIMUS, diz: Abra a caixa, Pandora; não é o que deseja, há tanto?"
DESDÊMONA, diz: "Quer... dizer..."
HYERONIMUS, diz: " Open the door, my darling".
( HYERONIMUS parece estar em off-line)
(DESDÊMONA parece estar em 'ausente')
Havia algo mais no ar; algo que a descerebrara, a tal ponto que parecia esvoaçante mariposa, hipnótica, ante um halo de baço luzir; inquieta, olhou o último obstáculo entre ela e a provável felicidade - uma felicidade apenas ensaiada em versos, conversas, quenturas verbais e inconstâncias de ambos os lados. O receio fôra-se derretendo com o fulgor que ardia dos bosques meridionais de sua outrora plácida e tépida existência; abriu a trabalhada porta de cedro envernizado e sorriu:
O notebook estava aberto sobre a mureta da varandinha.
Sorriu de novo. Um sorriso meio besta.
Pudera - foi só o que deu para fazer. Sorrir.
"...porque sorrir de tudo é desepero". Lembrou que ele adorava Barão Vermelho e Cazuza; os versos de Frejat escoltaram-na até o próximo logradouro de sua alma, sabe-se lá onde; não tinha certeza de mais nada, ali, idiotizada frente a um notebook na varandinha, a lembrar de Frejat. E do gosto que ele demonstrara, uma vez num passeio, na feirinha da Praça XV, por lâminas de combate. Como aquela, que encerrara de vez o bate-papo e desadicionara seu endereço vital-virtual da Grande Rede dos Vertebrados...
Havia algo mais no ar.
Algo a fazer.
Ele fechara o Note, retomara o aço nas mãos e, no PC-órfão que luzia toda a penumbra (do antigo solar da fotófoba - notívaga, em vazão escalarte sobre o caro tapete), começou uma nova busca. Busca por comida. Ainda tinha fome.
OLHOS VERDES, diz: " Oi, quem é vc...?"
HYERONIMUS, diz: "...tenho fome..."
quarta-feira, 25 de junho de 2008
"Viagens e Delírios" - lançamento oficial
Finalmente!
Dia 07 de julho próximo será o lançamento de meu livro de crônicas, contos, prosas poéticas e poesias: VIAGENS E DELÍRIOS é fruto de minha aventura inicial pelos caminhos da literatura.
O mesmo ocorrerá no XXXV Café Literário da Biblioteca Estadual de Niterói - cidade que me acolheu de forma tão humana que precisaria das sete vidas de um gato para iniciar o agradecimento por tanto feito à minha alma.
Muitos foram importantes para a elaboração deste tomo - alguns sequer imaginam a decisiva presença inserida em minha obra - , mas além dos que já trilham comigo a estrada da vida (referências obrigatórias na apresentação do livro), quero aqui agradecer ao profissionalismo, amizade e desprendimento além dos limites daqueles que veicularam meus devaneios no mercado editorial; totalmente despido de qualquer vaidade, direciono os méritos desta obra àqueles que me toleraram e compreenderam meus achaques e motivos para tanto.
Carinho eterno - vocês merecem!
Labouré Lima
Heloyza Ronzani
Anderson Fabiano
Roberta de Souza
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Falta pouco - Viagens e Delírios
Está demorando... mas é até bom que demore!
Ainda em maio, o lançamento de "Viagens e Delírios", meu livro de estréia na selva editorial. E como minha bússola tem sido aqueles que me apoiam neste projeto (e também na minha agitada vida), faço aqui este informe.
Ando em polvorosa nestes dias que antecedem a gestação do rebento amado. Tensão pré-parto, comum em quem escreve. Nunca senti isto, é estranho e quase que flagelante, nervos em frangalhos! Eu e Labouré (editora) andamos às turras, mas isso é de praxe. Só que sou navegante de primeiríssima viagem, guarda-marinha imberbe na litero-gramaticalidade. Anderson já havia falado deste estado da alma. Credo! Mundo louco, este da literatura!
Mas, vamos que vamos!
Logo, estourarei o espumante no casco e lançarei velas ao mar desafiador das palavras e críticas. Caraca!
Fui! Na paz...
sábado, 3 de maio de 2008
Ibericum Peregrinatur

Em Lisboa, consagração: animado pelo galope de dois cavalares músculos em bombear hemodinâmico, abandonei-me por inteiro à peregrinação pelos encantos da peninsular paixão que carregara-me, meses a fio, em incerta e tempestuosa diáspora de meus credos arraigados; em Compostela, fiz o inverso itinerário dos monges do formalismo ético-social, abalroando penitentes, néscios no que tange a autenticidade dos desejos; em Toledo, armei-me para lutar - aço contra aço - contra as maquinações das abandonadas ao relento emocional; em Madrid, tivemos nossa Guerra Civil: dois miúras enfurecidos a impôr caprichos; Valência acolheu-nos em saborosas abluções à beira-mar; Sevilha, outra cruzada , católico-inquisidor versus moura-encantada; Barcelona, fizemo-nos encantadores para o mundo e monstruosos para nós mesmos... enfraquecidos por tantas contendas, resolvemos: um último e vibrante flamenco antes de transpôr os Pireneus, o nosso Rubicon - mas não ouvimos a trompa ou o retinir da durindana de Rolando nos desfiladeiros de nosso amor caliente, inigualável porém frágil e vulnerável ante a traiçoeira horda basca sobre o Magno desejo de imperarmos sobre tudo e todos, invejosos e certeiros... o epílogo de uma história tão bela, pura e maravilhosa que, agora longe da tempestuosa e fascinante hispanidade que revestia sua alma ígnea,merece um lugar na Eternidade, entre sonhos belos, numa fantástica e inesquecível viagem, Quixote e Dulcinéia, Eurico e Hermengarda, eu e vocês, saudades... Adiós, e vaya com Dios.
domingo, 20 de abril de 2008
História de tarados e assassinos

Chuva fina. Venta muito.
Lindaci, dezessete anos, normalista, segura firme a inútil sombrinha barata que verga ao sabor do mau tempo. Olha ao longo da estrada, ambas as direções, aflita. A que horas chegará?
Ponto de ônibus deserto, longe do centro do bairro de Campo Grande, Rio. Lindaci tenta ficar longe de uma enorme poça formada na deprerssão do asfalto. A chuva castiga-a um pouco. Lindaci enerva-se um pouco mais. Saia de pregas bem curta, a exibir muito das grossas e reluzentes coxas negras. No outro braço, um fichário de acrílico. Confiou no solzinho mentiroso da manhã e deixou a bolsa em casa. agora, paga pela burrice atuando como acrobata. E o vento aumenta, a chuva espalha-se mais, Lindaci só está seca da cintura para cima. Suas coxas brilham, as meias de cano longo colam nas canelas. Mais que nunca, estica o pescoço ansiosa, feito Chapeuzinho nos contos infantis.
"Mas que saco!"
No poste da parada, dissolvendo-se aos poucos, um cartaz com foto em preto & branco de mais uma estudante desaparecida nas imediações. Outra que não teve chance, ou tentou e foi abatida, pensou Lindaci, olhando a foto borrada. "Se bobear, será a minha vez; será que..."
Diminui o vento, aumenta a chuva.
Ver aquele cartaz azedou de vez o seu início de tarde. Já estava de saco cheio com as recomendações sobre tarados e assassinos, tudo de mau que acontece naquele trecho outrora tão calmo. Em breve, cuidados com o coelhinho da páscoa, o E.T., papai noel. Lindaci tinha certeza que, se o tarado fosse o Murilo Rosa ou o assassino, o Clive Owen, todas as suas amigas já estariam mortas. Lembrou da Mônica, do terceiro ano; lembrou das vítimas do motoboy paulista, dos tios-sukita da vida. Algumas deixavam-se levar pela aventura, outras eram forçadas. Todas mortas. Algo precisa ser feito. Polícia? Deixa p'rá lá. Senão, nenhuma morreria. A do cartaz estaria viva - a coitada tinha oito anos, credo!, oito anos, que cidade maldita, essa! - e ela queria ficar viva. Pegou o celular e ligou: mas que porra de demora é essa, daqui a pouco danço eu...
E lá vem mais vento.
E tome chuva. Ainda estava só, naquele ermo.
A sainha de pregas levanta com a lufada, biquini minúsculo, mãos ocupadas, deixa estar, ninguém está vendo, voa, passarinha, voa...
Farol no rosto. Nem percebeu o quão perto estava, não se tem visão decente, chuva aumenta.
Peugeot 406, prateado. "Que máquina", delira baixinho Lindaci, filha de gari e enfermeira, negra, pobre, jamais entrará num carro desse, vai , moço, vai embora, não diminui não, não complica, não inventa, tú não viu nada, ou viu?, vai...
A máquina encosta bem rente às pernas de Lindaci. E começa a negociação.
Coroa educado, juba grisalha ("mulet" prata, quase igual ao carrão), oferece carona cheio de rapapés. Lindaci acha engraçado, mas explica que não precisa, o Richard Gere insiste, liga o MP3 de propósito, cheio de filantropia, cheio de amor para dar, de más intenções, Lindaci estremece de frio e fica na silenciosa torcida para que o celular toque ou chegue a cavalaria: a porta da nave espacial se abre, acabamento de couro finamente trabalhado, aroma automotivo diferente, Jamiroquai na caixa, Lancelot sorri, Guinevere cede. Pronta para abdução. Entra sem saber direito se quer ou não quer, o vento sopra mais forte, a sombrinha voa de vez das mãos, recusando-se a embarcar. A porta fecha.
No banco de trás, uma negra e enorme sacola de viagem.
...........................................................
Pátio coberto do Colégio de Instrução. Day After.
Intervalo para o lanche, a tevê da cantina tem seu volume aumentado: quase a totalidade dos presentes é de moças. Boa parte delas, apreensiva; um outro grupo, indiferente. Todas ligadas no telejornal local. Que começa: "Mais uma vítima de assassinato encontrada num matagal próximo ao Colégio de..."
Queda de luz. Alvoroço.
O zelador, sem querer, desligou o disjuntor errado lá na secretaria. Corrigido o erro, só houve como ver, na tevê religada no timer, o Peugeot 406 sendo retirado do matagal. Portas abertas, objetos do porta-luvas espalhados, sangue no estofamento caro, um fichário de acrílico igual a muitos. Corpo, nada. Quer dizer...
- Olha lá! - gritou uma das alunas - Deus do Céu, é monstruoso o que fizeram...
Todos se horrorizaram com o estado do cadáver.
Menos a mocinha com a enorme sacola. E sua amiga - a que chegou "atrasada" com a carona, deixando-a à mercê das intempéries, seguindo-os de longe e aguardando o fim da emboscada.
Algo precisa ser feito.
Vá que um deles seja o tarado...
Liberdade!...

...para a pena que fala
do clamor do coração!
Soltemos as amarras,
basta de travas,
arrotar estilos,
defecar mármores!
Que só a Gramática
e não apenas a estética
guie-nos pelos mares
da erudição verdadeira:
a que brota d'alma,
a que jorra do peito
de um debulhante coração
que berra de amor pelo belo
e vê beleza no nada
- o tudo entedia -
Suficiências são boas
para garantir empregos;
para grupos fechados,
sociedades por ações
lucrando em edições
e ricas encadernações
de um espírito disciplinado:
"MERDA!, disse a Duquesa",
declamemos, pois, com a certeza
da compreensão imediata;
chega de farsa!
(Já dei-me por dito - secou-me a garrafa!).
300 Reflexões

Abandono a garrafa à sorte dos tatuís; sento-me ante o limiar hidrosférico, fronteira onde a areia some sob as espumas e minha vida revela-se claramente a cada lambada das ondas no meu corpo; o doce dos seus lábios em meu ombro firma, simbiótico, um pacto fermentante com o sal netúnico, ardendo-me lembranças gostosas da madrugada em que, Leônico, reconquistei-te às pérsicas hordas de bestas-feras daquele piano-bar; ébrio de enlouquecida paixão, investi minha falange sobre o seu teatro de operações, hora e meia fustigando as Termópilas, bloqueando seus medos, penetrando fundo em seu acidentado relevo, permitindo-me imolar pelos seus dentes - alvacentos transeuntes, lembrando ao mundo da sua coragem e amor no leito frugal de lacônico e selvagem monarca - até que Poseidon, vivaz, abluitivo, chicoteia-me uma vez mais com o verde látego marinho: custa-me, ainda, crer que venci com tão pouco...
terça-feira, 18 de março de 2008
"Viagens & Delírios", em breve - aguardem!!!
Uma fascinante viagem pelos caminhos da Literatura. Despretensioso, porém bem cuidado, como um jardim tipicamente britânico, o primeiro livro deste autor que vos tecla, é o resultado de dois anos na prazeirosa labuta em observar o mundo e as pessoas. A princípio, intimidante: quase que verborrágico em alguns textos, sucinto e bem trabalhado noutros, despojado e levemente humorado em quase a totalidade; "Viagens & Delírios", mais que devaneador, incita aos interessados por boa leitura a procurar o verdadeiro sentido de cada um dos textos, posto que todos eles definem-se da mesma forma que Luís XIV declarara, há séculos: "Não há nenhum tratado que não possa ser interpretado de, no mínimo, duas maneiras possíveis".
A intenção, embora dúbia, é essa mesma. Tipo a Esfinge (decifra-me ou devoro-te!), cada história, prosa ou poesia, mostra para o leitor que o mundo e as pessoas que nos cercam jamais são elas mesmas o tempo todo. No decorrer de vinte e quatro horas, uma verdade pode passar à engodo, enquanto a mentira mais belamente ornada transforma-se na cômoda porém insípida verdade. Levando-se em conta que já vivemos, lutamos e morremos por ideais nada nobres - fora a burla escorreita dos mandatários e burgueses de alto posto - e por ícones de barro, somados a princípios indecentes e sede de poder da camarilha perpetuada em paletós, gravatas e ações ao portador, este livro de proso-poesia nada mais é que o retrato rebuscado levemente da sociedade metástica em que vivemos neste início de século, "... sobre o escombro fumegante do capitalismo selvagem - Agnóstico New Age" . Não dá para recriminar, por exemplo, Cassandra e seu oportunismo na tunga a um patrão que, nas entrelinhas, tungou proporcionalmente bem mais que a doméstica ("Abre-te, Sésamo!"); ou Glória, no seu derradeiro instante de vingança, em "Requiem para Glória". Poderíamos até perdoar Cássia, desaparecendo aos poucos nas areias de Charitas ("Crepúsculos"), ou o meu pessimismo crasso em "A Última MPB", face aos desmandos e abusos dos dólares em cuecas e cartões corporativos, preparando sombriamente o país para um futuro-sem-futuro. Num ritmo acelerado em prosa ou intenso em poesia, faço questão, apenas, de uma única coisinha: não se constranjam em reler quantas forem as vezes. Afinal, como Leon Uris sugeriu na voz de Abe Cady em QB VII: "O ofício principal de todo bom escritor é: reescrever, reescrever, reescrever". Seja, portanto, o do leitor, sempre "reler, reler, reler" - só assim, um admirável mundo novo será descoberto a cada viagem delirante nessas páginas neológicas, quase verborrágicas...
domingo, 4 de novembro de 2007
Xeque do Pastor

Coragem - a mais bela e vibrante palavra, quando proferida nos bares, cerimônias, filmes, documentários, discursos em palanques e das mais variadas formas. Sonoridade fonética, visa engrandecer possível determinação humana ante adversidades, a princípio, intransponíveis (lógico que há definições mais sucintas e esclarecedoras do que esta). A diferença reside no uso prático da palavra - "aí, foi que o barraco desabou", diria o notável Jorge Aragão, nos encontros dos bambas; nessa, é que o barco de Zuleica se perdeu, nas esquinas do tabuleiro de xadrez em que a sua vida fôra arrumada, sem, ao menos, dispor de habilidade para recitar a segunda numa roda de pagode ou uma saída com as brancas no melhor estilo Capablanca. Arregimentara coragem na última (e mais acesa) discussão com Paulo, após o debutar da filha caçula; os costumeiros impropérios sobre uma tacanhice e dependência, falta de estilo e classe, suas bebedeiras com as amigas e fumageiras nicotínicas. Dezessete anos aguardando o momento para se livrar da prisão luxuosa imposta pela acidez daquele que deveria ser o mel no seu favo e tornara-se o veneno lento, arsênico branco introduzido na alma metodicamente, a cada humilhação; dócil, amiga dos prazeres mais simples e hábitos morigerados no medianismo da plebe , vira Paulo invadir o seu lado no tabuleiro da vida num estilo impetuoso como o de Korchnoi e com maior tendência em trabalhar jogadas pelas beiradas, bispo e torre dançando loucamente num amor pelo luxo e sofisticação e total falta de paciência com qualquer aparte contrário. Apaixonando-se pela temerária e monolítica presença do macho provedor, tão convincente quanto qualquer apóstolo martirizado que convencia sua ovelha a ceder o pescoço ao fio da lâmina por amor à quimeras; Zuleica perdera, em dezessete anos de catequese marital e jogadas bisonhas no tabuleiro da vida, sua identidade. E não sabia como sair do xeque imposto pelo destino, umsimples movimento de peão para frente e, imperceptível, o rápido golpe da rainha num xeque-do-pastor, a desgraça maior para quem não é versado nas trapaças do mundo. Até que a derradeira rispidez ante amigos e esposas do cônjuge levou-a, aos prantos convulsos no silêncio do quarto tépido da primavera litorânea, a encontrar a vingança niquelada e abastecida em pente por baixo das cuecas e meias do roncador profuso, babando direto na majestade da ignomínia. O grito do Ipiranga num estampido, bastava apanhar, ali, ao alcance da mão, lágrimas escorrendo toda uma impureza pretérita, o impasse do lance branco, um passado de subserviências - da madrasta seca e grosseira para o marido possessivo e cruel; a chama que apagara no dilúvio de um casamento morganático em sua essência - ele, posudo, letrado e grosseiro; ela, simples, alegre e arrasada. No brilho da Glock, as chaves que abrem a prisão, o Havaí não muito longe daqui, o louro das madeixas de um possível interesse há semanas, detectado na peixaria, a coragem brotando feito palavra bonita no fundo da alma, mas de um modo impensado, flor da pele, desabafo num jogo em que o sangue frio é regra, Bobby Fischer trabalhando a fuga da rede armada por Anatoly Karpov, sovieticamente sinistro em cerca-lo com o cavalo em quatro lances diagonais, o mundo de portas arreganhadas...
- Mãe?
- ...mmmm, o quê? (rápida camuflagem para vencer num lance só).
- Papai furou minha mesada de novo... me empresta um seu, sem abas, tô sem nenhum...
Nem sempre a coragem está na cromada precipitação, ou em outra perna-de-calça, um novo e tumultuado recomeço; ela se esconde nas sinuosas veredas do cotidiano, na busca de alternativas serenas e inteligentes - por vezes ininteligíveis, mas que estão lá, bem ao alcance da mão, em vozes púberes e constantes renovações de perspectivas. "Fala-se demais em coragem, experimente ser corajosa sem dinheiro pro Always", capitulava Zuleica, enquanto fechava uma gaveta de futuros pesadelos e abria outra, de eternas esperanças, lutas e sonhos. Fugindo, temporariamente, do xeque-do-pastor. Até que o jogo, tão psicótico, a enlouqueça de vez...
Pela Rota das Gerais (São Francisco)

Pelos caminhos do ouro, El-Rey de Bragança se avolumava em quintos, remetendo aos infernos o Alferes Coragem; pelas dobras do Espinhaço, as veredas do grande sertão reverberavam as pegadas dos tropeiros em busca do luzir das patacas; por toda a Intendência das Gerais, desde a Canastra, passando por Pirapora, descendo o dorso de um gigante sonolento, eternamente assediado pelo molestar lascivo das nações amigas, do Tijuco à Itabira, ontem, hoje e sempre, sob toadas de viola e a música das esteiras mecânicas dos garimpos: vai, Francisco, sob pontes, só de passagem; passadiço para a esperança de um país menos espoliado, menos vilipendiado. Mais feliz.
sábado, 3 de novembro de 2007
Acerte e Leve

Sou alvo fácil de paixões desenfreadas; de pessoas que, por falta de habilidade com o florete da vida, vivem levando estocadas profundas... e eu, exposto ao formidoloso olhar das medusas, petrificando meus anseios e sonhos em prol dos monolíticos destinos alheios; vivo de mangueira na mão, apagando incêndios criminosos de outrem, fazendo rescaldos nas fornalhas de explosivas criaturas-sem-criadores, seres univitelinos, singulares, forjados em fraca têmpera nas grelhas das fundições independentes, sem alvarás para funcionamento legal na vida - porém, com um pacote-pirata de expansão ao eterno dispor deste tolo rematado...não precisa caprichar na mira, você que chega no bar desta enfumaçada boate: atire sua seta de qualquer forma, pois ela fulminará com certeiro vigor este beócio coração...!
Bola e Paixão em Campo

Nunca disse que, desta água, não beberia;
mas, homessa!, disso tudo, desconhecia:
não sabia - juro! - não sabia,
de forma alguma, quais as regras
que nos conduzem a mais intensa loucura
- para os olhos, uma festa:
belo e sinuoso corpo, atrevido, saliente,
"Mexe com o coração da gente!", assim falava
o locutor - muito esperto para o esporte,
mas não sabe nada de amor!
Boca farta, pernas fortes,
e o shortinho, pequenino, coisa rara
a juíza; entre dentes, sopr'apito
(que "boni_tu és"); mulher em negro uniforme
tão gostosa, que talento...
"Olha a bola, zagueiro! Marca, fedorento!"
Embasbacou!
E a beldade, aqui, não perdoou:
correndo para a marca, confirma o gol;
e eu ali, paradão, impotente...
Irão rescindir meu contrato,
mas, quer saber, minha gente?!
- Mas que futebol, que nada!!!
O legado da serra (São Francisco)
Cansada por tantas contendas tectônicas de milhões de anos contra as quaternárias irmãs - cristalinas em viçoso encadeamento numa imensa arena cingida em ferro e gemas cintilantes - , a Canastra parou; assentando-se, em definitivo, sobre uma ondulante pasmaceira arqueana, decidira, em testamento traduzível nas rochas e vertedouros, legar o sêmem de sua natureza indômita ao irrequieto planetóide azulado em forma de copioso lacrimejar; a partir daí, o pranto da serra edificaria os arredores inóspitos com verdejantes camadas de vida - a mesma que se sublevara contra o invólucro ferroso e, transparente e sinuosa, transportaria esperança a futuros ribeirinhos, abençoaria uniões, produziria energia e espetáculos grandiosos em cascatas magníficas, abasteceria açudes, faria fortunas (legais e ilegais), conduziria espíritos em forma de carrancas, saciaria descamisados, até o majestoso copular com o oceano. Mas, isso tudo, é uma outra história...
sábado, 12 de maio de 2007
Decisão por penais

terça-feira, 24 de abril de 2007
Salto Triplo

terça-feira, 17 de abril de 2007
Lanchinho Surreal

...e, enquanto eles pensam...

segunda-feira, 16 de abril de 2007
Camuflagem do Espírito

sexta-feira, 13 de abril de 2007
Eu tentei...

quinta-feira, 12 de abril de 2007

